Na esnoga sentado no chão
Ouço o lamento sefaradi
A voz do chazan hoje aqui,
Lembra-me o aboioar do velho peão
O que ouço neste dia infeliz?
As lamentações e kinot
Ou o triste cantar de Luiz
Que menino conheci,
Na casa de meu bisavô?
sábado, 28 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
BATER OU FALAR: A PERASHA CHUCAT E A LEI DA PALMADA
Chucat em hebraico significa um tipo
de ordenamento divino que é caracterizado
pela falta de um evidente motivo para que os
homens o siga. Esta perasha
trata de uma chucat específica, a
relacionada a vaca vermelha. A tradição
ensina que a despeito de não sabermos
os motivos das chucot devemos segui-las.
Cumprir somente aquilo em que compreendemos
evidencia mais uma fé na nossa racionalidade
do que uma fé em HaShem. Mas há na
atualidade atemporal da Torah um conjunto de
ensinamentos éticos que são mais fáceis de
serem compreendidos, e que podem iluminar
um pouco alguns dilemas humanos, inclusive
contemporâneos. Como alguns dizem: “está
tudo lá”. Atualmente vem se discutindo no Brasil,
a chamada “Lei da palmada”. Uma lei que para
alguns visa coibir a violência familiar contra as
crianças e que para outros impediria os pais de
educarem seus rebentos do modo como bem
entendem. Nas redes sociais opositores da lei,
usam slogans do tipo: “Eu levei palmadas e
agradeço a meus pais por isso”. Voltemos
a perasha. Após descrever a complexa e intrigante
chucat da vaca vermelha, surge uma das narrativas
mais dramáticas da Torah. Narra-se um episódio cujo
desdobramento final é o decreto divino que nem
Moshe Rabenu, nem seu irmão Aarão HaCohen,
a despeito de todas as suas virtudes não poderiam
entrar na terra de Israel, após a longa peregrinação
pelo deserto. Uma síntese despretensiosa do ocorrido
seria mais ou menos assim. Mais uma vez o
povo reclamava sem parar para Moshe. Desta vez
reclamava de sede. D’us diz ordena a Moshe falar
com uma certa pedra, mas Moyses irado com mais
esta demonstração de falta de fé do povo, e
abalado pela recente morte de sua querida irmã
Mirian, bate, não uma, mas duas vezes na pedra.
Aarão, seu irmão observou parado e calado tudo.
A água jorra, a sede do povo é aplacada, mas
uma sentença pesada é em seguida decretada.
Nem Moshe, nem Aarão entrariam na terra de Israel.
E este último teve sua morte iminente anunciada.
D-us ordenou falar e não bater. O fato de o povo
ser reincidente e de Moyses já ter feito de
tudo para lidar com sua desobediência e falta de
fé não atenuaram o decreto. O fato de Moshe estar
abalado pela morte de sua irmã também não
mudou muito a transgressão do grande líder judeu.
Os sábios costumam dizer que um dos motivos
para a severidade da sua punição seria o fato
de ele ser um líder, e quem ocupa este lugar
não pode agir de forma destemperada com os
seus. E Aarão? O que ele fez para ter uma pena
igual, além de sua morte ter sido decretada na
sequencia? Aarão não fez nada. Esse foi o seu
erro. Calou-se. Na primeira batida não poderia ter
feito nada, mas na segunda poderia ter evitado,
aconselhado ou algo do gênero. Mas calou-se.
Voltemos pois a questão da “lei da palmada”.
Ora, se se deve falar com uma pedra e não bater
nela, porque se deve bater e não falar com uma
criança? O fato de a criança ser reincidente, não
justifica. O fato do pai e/ou mãe estar por algum
outro motivo aborrecidos, não justifica. O fato de
ser pai/mãe, chefe ou líder, não justifica, na
realidade, incrementa o erro. E calar-se, diante
deste bater-ao-invés-de-falar é tão o mais grave
do que bater. Como dizem: “está tudo lá”, e eu
completo basta ver.
Maximiliano Ponte
segunda-feira, 16 de abril de 2012
NOS VEMOS NO KOTEL!: ou quando amigos voltam para casa

Aquele era um dia muito esperado. Foi algo
muito preparado. Afinal de contas, uma decisão
destas não se toma de uma hora para outra. Sair
de perto das pessoas com as quais conviveu por
tanto tempo não seria algo muito fácil. As malas
estavam prontas. As coisas da antiga casa já estavam
encaixotadas. Fazer o que estavam por fazer,
além de ser algo desejado, era como uma obrigação,
uma mitzvah... Mas a despeito de tudo isso,
os pais de Sarah e Abraham estavam apreensivos,
afinal seus filhos iriam se casar, iriam embora.
Seus corações de pais estavam apertados, os olhos
marejados de água. Isso não queria dizer que eles não
estavam contentes. Sim estavam. Mas os sentimentos
eram diversos, concomitantes, e contraditórios.
Sem dúvida estavam ansiosos com possibilidade de ter
netos, e ter seus pais nombrados por seus filhos. Mas
também, não iriam mais conviver com os filhos de
modo tão próximo como estavam acostumados. Os pais
sentiam, antecipadamente, saudade dos filhos.
Conta um midrash que HaShem após a outorga da Torah
ao povo judeu ordenou a construção do mishkan. Os sábios
ao longo dos séculos fizeram uma bela interpretação desta
situação. Ao receberem a Lei, os judeus casaram-se com
a Torah que lhes foi dada por HaShem. Alegoricamente,
HaShem, como sogro, também teria ficado de algum modo
com saudade da Torah, e para apaziguar este sentimento
teria ordenado a construção do tabernáculo, pois este se
tornaria um lugar no qual HaShem poderia ficar um tempo
com sua filha, Torah, e dirimir um pouco a saudade.
Aquele era um dia muito dia esperado. Foi algo muito
preparado. Afinal de contas, uma decisão destas não se
toma de uma hora para outra. Sair de perto das pessoas
com as quais conviveu por tanto tempo não seria algo
muito fácil. As malas estavam prontas. As coisas da antiga
casa já estavam encaixotadas. Fazer o que estavam por fazer,
além de ser algo desejado, era como uma obrigação, uma
mitzvah... Mas a despeito de tudo isso, seus amigos estavam
apreensivos, afinal Marcelo, Andreia e a pequena Laura, iriam
fazer aliah, subir para Israel. Iriam embora, não exatamente
deixando sua casa, mas de fato voltando para casa. Os
corações dos amigos estavam apertados, os olhos de alguns
marejados de água. Isso não queria dizer que eles não estavam
contentes. Sim estavam. Mas os sentimentos eram diversos,
concomitantes, e contraditórios. Sem dúvida estavam ansiosos
com possibilidade de Marcelo, Andreia e a Laura cumprirem a
grande mitsvah que é morar em Israel, que segundo alguns sábios
equivaleria a todas as outras mistvot juntas. Mas também,
não iriam mais conviver com eles de modo tão próximo como
estavam acostumado. Os amigos sentiam, antecipadamente,
saudade da família Rezende.
Alguém poderia perguntar: se tens tanta certeza da grande
da mistvah que é morar em Israel, juntamente com
sentimentos de “falta” em relação aos amigos que para lá sobe,
porque não vais também? Eu não teria uma resposta clara e
direta para a pergunta. Lembraria tão somente de um trecho
do livro “O Cuzari” de Yehudah HaLevi, quando o governante
pergunta para o sábio porque ele a despeito da santidade de
Israel não iria residir lá. Em tom de lástima o sábio
tão somente comentou, “com esta pergunta o senhor
me envergonha”. Por outro lado, esperamos ter escavado
nos corações dos Rezende um pequeno tabernáculo, para onde, tal
como HaShem, possamos, mesmo que de vez enquanto, visitá-los.
Embora muito se diga que saudade é uma palavra que só
existe em português, em conversa com meu moreh Pinchas
ben Abraham verificamos que no hebraico moderno usa-se a
palavra “GAAGU'Á” para espressar saudade. O shoresh, o radical,
deste palavra, é געה. A ideia que estaria implícita as palavras
que se valem deste radical é “tentando por pra fora algo
muito forte que está dentro”. De tal forma, que a palavra berrar
estaria relecionada a este shoresh. A beleza do lashon hakodesh
exprime bem o sentimento que temos em relação a alyah destes amigos.
Sobretudo por não associar a ideia de tristeza, ou perda.
Mas sim, a ideia de que temos sentimentos dentro de nós que
precisa sair. Que como um berro precisa gritado. Não se trata de gritar
tchau, cuidado, ou boa sorte. Mas em plenos pulmões, dizer
em alto e em bom som: “Marcelo, Andreia, e Laura, nós nos
vemos no kotel! Este ano aqui, o que vem em Jerusalem!”.
E se não for no ano que vem, que seja em breve, e se não sejamos
nós que sejam nossos filhos, e se não for nesta vida, que seja em
outra, mas que seja.
Maximiliano Ponte
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
DIÁSPORA
domingo, 12 de fevereiro de 2012
UMA REFLEXÃO ANUSSITA DA PERASHA “BO”

Estive pensando quando li a perasha passada (Bo), sobretudo
nas passagens em que se dá as instruções para os benei
Israel sobre o Korban Pessach. Um primeiro ponto que me
intrigou foi porque será que HaShem disse para os yehudim
terem em suas casas no dia 10 de nissan um carneiro, tendo
em vista que somente em 15 de nissan seria a noite do
sacrifício pascoal? O outro ponto foi, porque HaShem pediu para os
judeus marcarem os umbrais de suas portas? Ora, a idéia simples
de que seria para identificar a casa dos judeus para que o anjo
da morte passasse por cima dela sem ceifar a vida de um
primogênito não me parece explicar tudo. Veja, noutro momentos,
em outras pragas os judeus foram poupados, os animais dos judeus,
seus campos, etc... Parece-me que um bom caminho para entender
essas questões, é que talvez HaShem gostaria (numa sabermos os motivos
Dele) que os judeus num primeiro momento ficassem perto do carneiro,
deus egípcio... Que ficasse com ele em suas casas... E que eles tomassem
uma decisão pública, assumissem publicamente que não eram goyim,
mas yehudim.... Que renegassem aos deuses pagãos, sacrificando-os e
comendo-os, e marcando suas casas com o sangue. Não bastava sentir-se
judeu, ou somente ter sangue judaico em suas veias. Era preciso ser judeu
para si, e para os outros. Não deixar dúvidas. Deixar isso claro, como se
gritasse as sete ventos... O inicio do caminho da teshuvah do povo, ter em
casa o carneiro, o deus do outro, renegá-lo e proclamar, por ações, a crença
no D'us único... Não pude deixar de lembrar dos passos que estamos trilhando,
eu e minha familia, no caminho de nosso "retorno" para Am Israel. Tivemos
nosso tempo com o "carneiro" (que D'us não permite que se repita), mesmo
que historicamente tenhamos sido forçados a isso, o renegamos e queremos
marcas os umbrais de nossa porta de um modo casher, para que possamos
ser e sermos vistos como judeus, se não por todos, por parte expressiva das
pessoas sérias de nosso povo... Isso não sendo feito, é como se ficássemos
a mercê do anjo da morte, temerosos...
Maximiliano Ponte
terça-feira, 18 de outubro de 2011
SUCOT E A LIBERTAÇÃO DE GILAD SHALIT

Depois de um longo e difícil período finalmente
ele volta para casa em Eretez Israel, vindo do
Egito. Muitos acreditaram que isso nunca
aconteceria. E com o fato consumado a única
explicação que se pode dá para o êxito de sua
volta é que D`us lhe protegeu, tanto durante
seu longo cativeiro, como durante seu quase
impossível retorno para casa. É preciso
lembrar que o êxito do retorno foi acompanhado
de perdas e mortes. Por outro lado, com seu
retorno, há algo como um recomeço, pleno de alegria
e esperança.
De quem estamos falando? Do povo judeu e da
festa de Sucot? Ou de um judeu específico e da
libertação de Gilad Shalit? De fato a resposta é
positiva para ambas as perguntas. As semelhanças
entre a saga do povo e a do jovem soldado
judeu-israelense ilustra mais uma vez as intrincadas
e complexas semelhanças que existem entre o destino
do povo e o destino de cada judeu em particular.
Destaca-se por outro lado, que aquilo que se pode
observar são analogias e não homologias, ou seja
semelhanças e não repetições. O rabino Jonathan
Sacks, certa vez comentou que uma das grandes
revoluções que o judaísmo promoveu no mundo,
foi introduzir no universo da relação entre o homem
e D’us a noção de tempo, e por conseqüência
a idéia de história. No judaísmo, diferente de outros
contextos religiosos, não concebe que o homem
encontra-se fadado a ficar preso na repetição cíclica
e sem fim do mito. Assim, podemos fazer analogias,
sem que haja necessariamente homologia entre
passado e futuro. E parece-me que este é o caso entre
Sucot e a libertação de Shalit...
Na abertura do texto apresentei um conjunto de
semelhanças entre as duas situações, embora algumas
distinções possam ser feitas. É bem verdade que o povo
e o soldado saíram do Egito, rumo a Israel. Mas também
é fato inquestionável, que os egípcios de hoje, pelo
menos neste evento, foram participes da libertação
e não algozes do cativeiro. No tempo bíblico, toda uma
geração de judeus morreu no deserto e não
chegou a Israel. No caso da libertação de Gilad, há
algo de morte no ar, na medida em que não se fez
plenamente justiça (pelo menos de um ponto de
vista humano) ao sem número de mortos judeus,
que tiveram suas vidas ceifadas no Estado de Israel
(independente e reconstruído), por indivíduos que
foram libertados pelas autoridades em troca do
jovem soldado. Ademais, dizem os sábios que a saída
do Egito não teria de fato sido completa sem a outorga
da Torá, que é rememorada em Shavuot. A libertação
de Shalit se dá, por outro lado as vésperas de
Simchat Torá, a alegria da Torá, momento no qual se
encerra um ciclo de leitura e se começa tudo
novamente. Ou seja, Simchat Torá associa-se a recomeço,
mas que fique claro não se trata de repetição.
O tolo pode pensar: para que vamos ler tudo novamente?
O sábio tem não apenas a certeza, mas também a esperança
de que poderá no novo ciclo de leituras compreender
aspectos que nunca havia percebido antes, pois reconhece
a limitação do homem e a grandeza do Eterno. O cético pode
pensar: de que vale tudo isso, em breve seqüestrarão e
matarão mais judeus, afinal sempre não foi assim, nós já
não conhecemos esta história? O esperançoso pensa que
sempre o futuro pode mudar, pois entendem que não estamos
presos numa roda do destino. Sabe que D’us interfere na vida
dos homens, e que na parceria com ELE, trilhamos e
construímos o nosso devir. Tem também ciência que nossas ações
e omissões podem acelerar ou retardar a vinda do Mashiach
(que seja breve e em nossos dias), independentemente
do que isso de fato signifique...
Como já comentado, existe uma profunda e
complexa relação entre o tempo, demarcado pelo Luach,
o calendário judaico, e o povo judeu, e cada judeu.
Em Pessach, tudo judeu deve sentir-se como se ele próprio
tivesse saindo do Egito, em Shavuot como se ele estivesse
no Sinai recebendo a Torá. Nos Iamim Noraim, que a
pouco passaram, cada judeu torna-se apreensivo, pois é
julgado por D’us. Em Sucot lembramo-nos da fragilidade
das moradias provisórias em que habitamos quando saímos
do Egito, e, sobretudo que foi a mão de HaShem que
nos guiou e nos protegeu no caminho de volta para
casa, iluminando-nos o céu com colunas de fogo durante
a noite ou protegendo-nos do sol com nuvens durante o dia.
É por tudo isso que penso que em Sucot, ou pelo menos
no chag de Sucot deste ano, todos os judeus deveriam
se sentir, de algum modo como Gilad Shalit ....
Maximiliano Ponte
terça-feira, 4 de outubro de 2011
QUATRO DE OUTUBRO: UM SÉCULO SEM SARAH BEILA
Quando Sarah nasceu, por volta de 1881,
o Brasil ainda era uma monarquia. Mas
para bem da verdade não há nada que possa
garantir que Sarah tenha nascido no Brasil.
Certo mesmo, é que ela morreu, em Manaus,
quando o país ainda era uma muito jovem república.
Pouco se sabe sobre ela, além das poucas
informações que constam em sua lápide no
cemitério São João Baptista, na capital amazonense.
Maimônides nos dizia que apesar de as mitzvot
relacionadas aos sacrifícios rituais e outras tantas
não possam ser praticadas nos nossos dias, isso
não significa que elas estão anuladas (que D’us
não permita) e que não tenhamos nenhuma obrigação,
enquanto judeus, em relação a elas. O chacham
espanhol dizia que devíamos estudá-las, buscando
compreendê-las, mesmo sabendo que pouco
entenderíamos e muito menos ainda praticaríamos.
Faço a partir deste ensinamento uma analogia,
com as inúmeras ressalvas necessárias, com a busca
da história de Sarah: nunca saberemos completamente,
mas não podemos, por outro lado simplesmente esquecê-la.
As “pistas”: pontos de partida para elucubrações.
Uma eventual primeira pista seria o fato de Sarah ter sido enterrada fora do cemitério judaico. Isso
poderia nos relevar algo? Em outro contexto talvez,
mas neste específico não. O Cemitério Israelita
de Manaus só entrou em atividade por volta de 1928.
Antes desta data os judeus eram enterrados no
cemitério São João Baptista ao lado dos goyim.
De fato, há pelo menos 94 sepulturas judaicas
nesta mesma situação, conforme levantamento da
Chevrah Kadisha local.
Outra pista seria o seu nome. O nome Sarah
(gravado em hebraico como shin, resh, he)
é um nome judaico feminino muito comum,
o mesmo não pode ser dito do segundo, Beila (gravado בלה)
. Conversando com alguns amigos, notamos a semelhança
de Beila, com Bella. Seria uma alusão a sua possível formosura?
Investigando um pouco mais pode se saber que
Beila também é uma variações de Bayla, um nome de
fato comum, entre judeus de origem azquenazi. De fato,
um amigo judeu de origem polonesa, disse-me inclusive
que este era o nome de sua avó, e que o fato de faltar
um “yod” em בלה para que a pronuncia fosse Beila
não seria um grande problema. Já meu moreh de
hebraico Pinchas ben Abraham me explicou que a “palavra
בלה (balo) é um verbo, sua raiz significa: apodrecer,
deteriorar, envelhecer, e também significa passar
o tempo, divertir-se. Na formar Balê (adjetivo)
significa: velho, usado... sua forma é feminino”. Outro
ponto ainda importante em relação ao nome é que
este não aparece como do modo tradicional hebraico,
ou seja, Fulana bat (filha de) Beltrano. Digno de nota
ainda é o fato que não há nenhuma referência a nomes
de familiares. Na lápide está gravado apenas “saudades
de suas amigas”. Um último ponto, das poucas “pistas”
é que Sarah morreu aos 30 anos, em 1911, em pleno o
boom da borracha, e da belle epoque amazônica.
Juntando (ou criando junções entre os) pontos: Seria Sarah uma judia de origem askenazi?
O que ela faria no Amazonas que recebeu
principalmente judeus sefaradi vindos, sobretudo
do norte da África? Tem-se registro que muitas belas
jovens judias do leste da Europa foram ludibriadas
e traficadas para o Brasil, incluindo para o Amazonas,
para trabalharem como prostitutas (as polacas). E para vergonha
de Am Israel, muitas vezes inclusive pelas mãos de
organizações criminosas compostas por judeus (aos
interessados sugere-se o livro “Cabelos de fogo” de
Marcos Serruya). Se este fosse o caso de Sarah,
seriam desconcertantes as “coincidências” dos possíveis
significados do nome Beila/בלה: a semelhança com bela,
a associação com Balo e balê (que inclusive poderia
neste contexto ter relação com a ideia de perdida ou
desgraçada). Faria ainda sentido a época de sua morte,
e de certo modo o fato de ter morrido tão jovem. A vida
difícil, a violência, a vergonha abreviaram a vida de muitas
destas mulheres. A ausência do nome de familiares e a
referência apenas das “amigas”, é outro ponto que nos
permite tecer este caminho especulativo. Sabe-se que em
diferentes lugares estas mulheres organizaram associações
de ajuda mútua. Teria sido a lápide uma última
homenagem de suas companheiras de trabalho, de infortúnio
e de fé? De fato, como dito antes nunca saberemos.
Sarah poderia ser alternativamente uma jovem sefaradi
ou francesa que morreu de parto, malária ou outra mazela.
Poderia ter morrido viúva e sem posses, deste modo outras
mulheres piedosas financiaram seu sepultamento. Muitas
poderiam ser suas historias. A verdadeira, talvez nunca saberemos.
Outras “coincidências”No último domingo 02/10/2011, dia em que a comunidade
judaica de Manaus fez sua visita coletiva ao cemitério,
no período entre Rosh Hashana e Iom Kipur, vi pela primeira
vez a sepultura de Sarah, pequena e estreita, entre outras
tantas sepulturas de goyim. Como minha história oficial com
o judaísmo nesta vida é relativamente recente, e como
não sou natural do amazonas, não tenho parentes sepultados
no cemitério de Manaus, seja no israelita ou no São
João Baptista. Mas eu estava disposto a visitar uma
sepultura, de alguém que não receberia provavelmente
nenhuma visita. Ou seja, alguma das 94 sepulturas que
estão fora do cemitério israelita. Um chaver me disse que
conhecia uma, e me levou até Sarah. Colocamos algumas
pedrinhas e fui embora. Quando cheguei em casa, fui
folhear o livro Eretz Amazônia de Samuel Benchimol.
Lá pude ver que a data de morte de Sarah foi 04/10/1911.
Vejamos algumas “coincidências”, agora comigo mesmo:
1. Há uma semana recebi de presente de uma aluna o livro
“Cabelos de Fogo”; 2. Li este livro no primeiro dia de Rosh
HaShana; 3. Minha irmã mais velha nasceu em quatro de
outubro; 4. Dois dias de eu ter entrado em contato com Sarah,
pelo calendário gregoriano completaria, um século de
sua morte! (Pelo calendário hebraico, a data seria 12 de
Tishiri, época em que não se recomenda que se visite o
cemitério).
O dia seguinte ao encontro e o que de fato sabemosNo dia 03/10/2011 fui novamente ao cemitério acender
uma vela para Sarah. O dia estava atipicamente cinzento,
e com uma brisa inusual. Procurei novamente a
sepultura dela. Andava, andava e não achava. Passou
pela minha cabeça: será se não vou encontrar?
Não é possível! Acho que andei por mais de meia hora.
Com auxílio da zeladora do cemitério israelita achei.
E depois de achá-la parecia que era impossível
não ter visto antes! Preventivamente eu havia levado
um pote de vidro onde eu pretendia acender a vela,
para que não apagasse. Mas esta estratégia não
funcionou. Uma chama pequena, frágil balançava
ao vento, quase como estivesse dançando. Várias
e várias vezes, a vela apagou. De fato para que a
chama se mantivesse acesa, eu tive que ficar ao
lado dela, tapando o vento com as mãos. Pensei
então que deveria fazer um esforço para manter a
vela acesa por pelo menos trinta minutos.
Durante este tempo, meu pensamento voou e bailou
ao compasso da frágil chama. Pensei:
quanto tempo faz desde que alguém ficou por
tanto tempo ao lado desta sepultura? Sarah Beila
seria seu verdadeiro nome? Ou um nome fictício”,
com significados ocultos? Teria ela tido filhos? Saberiam
que eram judeus? Por onde estaria sua alma?
Teria voltado? Teria tido uma vida melhor que a anterior?
E tantas coisas.
Por fim, me indaguei: de ante de todas estas perguntas,
o que de fato sabemos? De fato sabemos que há um
século morreu uma judia, que por algum motivo fui
sepultada de modo que fosse identificada e não esquecida
a sua condição judaica. Cem anos após sua morte pode
confortar um judeu, cuja história judaica a inquisição tentou
em vão apagar. Um século depois de sua morte me permitiu
cumprir esta mitzvah... Isso eu não posso esquecer.
De agora em diante, Sarah Beila, com o devido respeito a
seus parentes biológicos, e seja qual for sua história
será com uma tia minha (espiritual ou imaginaria, como
queiram... E lhe visitarei e cuidarei de sua
sepultura. E sendo bem sincero, não sei se faço isso por
ela ou por mim. Talvez nunca saberei...
Maximiliano Ponte
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